julho 05, 2008

Cultura e sexo

"Em latim, a palavra cultura remete primeiramente ao cultivo (agrícola). Em sentido figurado, ela remete ao cultivo do espírito. Por fim, ela remete ao culto no sentido de veneração. Cultivar implica esforço: preparar o terreno, selecionar as sementes, plantar e colher. Assim, se a cultura nada mais é do que a ação do homem sobre o homem, deve-se pensar essa ação como sendo um esforço (e mesmo uma crueldade) para produzir um homem capaz de esforçar-se.
Um homem incapaz de esforço é incapaz de levar adiante a tarefa da cultura. Em certo sentido, ele sequer é um homem. Totalmente absorto em suas funções digestivas e sexuais, ele irá tomar o campo social como um simples meio para sua satisfação privada. Não é por uma razão moral qualquer que se deve repreender o homem que trepa com suas próprias filhas. Deve-se repreendê-lo, isso sim, porque ao invés de fazer com elas um esforço de cultura capaz de produzir os homens (as mulheres) de amanhã, ele está fazendo delas um mero objeto de seu gozo privado.
Esse exemplo extremo mostra com muita clareza que o papel da cultura não é ensinar as crianças a ter prazer (algo que elas certamente aprenderão por sua própria conta), mas a esforçar-se. Ou então elas jamais aprenderão que o esforço pode proporcionar um gozo ainda mais intenso do que os prazeres digestivos e sexuais."


http://triagem.blogspot.com/2005/05/cultura-e-morte-9.html

maio 05, 2008

Henri Bergson

"O bergsonismo é uma dessas raras filosofias nas quais a teoria da pesquisa se confunde com a própria pesquisa, excluindo essa espécie de desdobramento reflexivo que engendra as gnoseologias, as propedêuticas e os métodos. Do pensamento bergsoniano pode-se repetir, em certo sentido, o que foi dito do spinozismo: que não existe para ele método substancialmente e conscientemente distinto da meditação sobre as coisas, que o método, cuja marcha geral ela de algum modo desenha, é antes imanente a essa meditação. Bergson insistia outrora com bastante inquietação sobre a vaidade dos fantasmas ideológicos que se insinuam perpetuamente entre o pensamento e os fatos e mediatizam o conhecimento. A filosofia da vida esposaria a curva sinuosa do real sem que nenhum método transcendente viesse relaxar essa estreita aderência; mais ainda, seu "método" seria a própria linha do movimento que conduz o pensamento na espessura das coisas."Vladimir Jankélévitch: Henri Bergson, Paris, PUF, 1959, p. 5.